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O ronco dos motores automotivos, durante décadas, foi acompanhado quase exclusivamente por vozes masculinas. Carros foram feitos para homens, e sua própria ergonomia deixa isso claro quando as chances de uma mulher sair ferida ou falecer em um acidente de trânsito, são 47% e 17% maiores, respectivamente, que as de homem, gênero com maior probabilidade de se envolver em um incidente, de acordo com uma pesquisa da escritora britânica Caroline Calado Perez. Além disso, o social não fica muito para trás, como no caso de Maria José Pereira Barbosa Lima e Rosa Helena Schorling, as primeiras brasileiras a obterem a habilitação para dirigir, e que só conseguiram tal direito em 1932, quase meia década depois do invento do automóvel por Karl Benz. Gostar de carros como um hobby sendo mulher, então? Inimaginável.

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No universo da velocidade como um esporte, mulheres eram exceção e, muitas vezes, vistas como intrusas. Pilotos, engenheiros, dirigentes e até jornalistas: todos moldados dentro de um ambiente historicamente construído para os homens. 

 

Ainda assim, em meio a tantas dificuldades, nomes femininos surgiram para questionar o status quo. Mulheres que desafiaram preconceitos não apenas aceleraram carros de corrida, mas também pavimentaram caminhos para que outras pudessem se imaginar nesse espaço. Hoje, o automobilismo começa, ainda que lentamente, a mudar sua cara. E cada conquista, por menor que pareça, carrega um peso simbólico que vai muito além do pódio.

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Foto - Acervo pessoal Analu Ramos

QUANDO A CORAGEM VIROU COMBUSTÍVEL

A Fórmula 1 nasceu em 1950, carregando o glamour europeu do pós-guerra e atraindo a elite masculina da época. Oito anos depois, a italiana Maria Teresa de Filippis quebrou um dos maiores paradigmas ao se tornar a primeira mulher a alinhar no grid da categoria, no Grande Prêmio da Bélgica de 1958. Sua chegada, quase uma década após a fundação do campeonato, não foi apenas tardia: foi cercada de resistência. Mesmo conquistando resultados sólidos em categorias menores, Maria ouviu de dirigentes que “o único capacete que uma mulher deveria usar era o de cabeleireira”. A frase, repetida ao longo da história, sintetiza o preconceito estrutural que sempre rondou a presença feminina no esporte. Ainda assim, ela insistiu, disputando cinco GPs oficiais.

Depois dela, outras tentaram furar a barreira do preconceito. Nos anos 1975, a também italiana Lella Lombardi se tornou a única mulher a pontuar em uma corrida, garantindo a sexta posição do GP da Espanha. Na década seguinte, a britânica Divina Galica e a sul-africana Desiré Wilson tentaram conquistar espaço, mas não chegaram a disputar temporadas completas. Wilson, aliás, entrou para a história ao vencer uma prova válida pela Fórmula 1 britânica em 1980, feito até hoje inédito para uma mulher.

 

No entanto, a ausência de continuidade evidenciava a dificuldade: faltavam patrocínios, apoio das equipes e reconhecimento de que mulheres poderiam competir em igualdade de condições. Em muitos casos, o simples fato de estarem no grid já era tratado como curiosidade e não como desempenho esportivo. Não é apenas dentro das pistas que as mulheres enfrentaram resistência. Nos bastidores, especialmente nas funções de engenharia e estratégia, a predominância masculina era ainda mais evidente. Por décadas, equipes inteiras eram formadas exclusivamente por homens, desde os chefes até os mecânicos responsáveis por trocar pneus em menos de três segundos.

 

Mas a história começou a dar sinais de mudança recentemente. Em 2023, sob a liderança de Susie Wolff, nasceu a F1 Academy, uma categoria criada exclusivamente para jovens pilotos mulheres. A ideia não era apenas dar visibilidade, mas também criar um ambiente seguro e competitivo para que talentos femininos pudessem se desenvolver. Com equipes estruturadas e um calendário internacional, a F1 Academy funciona como uma espécie de incubadora de pilotos, preparando-as para, no futuro, disputar espaços em categorias mistas. A iniciativa teve impacto imediato: não só atraiu patrocinadores interessados em associar suas marcas à diversidade, como também despertou em muitas meninas a vontade de se imaginar dentro de um carro de corrida. Se antes o sonho parecia inatingível, agora havia um caminho concreto.

 

A F1 Academy também tem servido como vitrine midiática. Ao colocar meninas no centro das atenções, a categoria rompe com a lógica da “exceção feminina” no esporte, substituindo-a por uma narrativa de pluralidade. O recado é claro: não se trata de um espaço improvisado ou de um experimento passageiro, mas de uma aposta estruturada na representatividade. Para as torcedoras, ver mulheres correndo lado a lado, competindo de forma profissional, é um combustível de identificação que fortalece o vínculo com o automobilismo em escala global.

 

Entre os principais nomes da atual temporada estão Doriane Pin, que carrega o brasão da Mercedes AMG Petronas F1 Team no peito, equipe em que Lewis Hamilton conquistou seis campeonatos; Tina Hausmann, figurinha carimbada para quem acompanha a garotada da equipe italiana Prema Racing, e a belga-brasileira Aurelia Novels, pupilo da Ferrari Drivers Academy.

 

Em 2025, a Haas F1 Team anunciou a engenheira Laura Müller como responsável técnica pelo carro de Esteban Ocon. Ela se tornou a primeira mulher a ocupar o posto de engenheira de corrida na Fórmula 1, um marco inédito em 75 anos de campeonato. O impacto vai além do cargo: Laura não apenas representa uma conquista individual, mas também um símbolo para meninas que sonham em ocupar espaços técnicos no automobilismo. Sua presença nos boxes mostra que o caminho pode ser árduo, mas não impossível.

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FOTO - Reprodução @taidgher

Durante muito tempo, a presença feminina no automobilismo foi invisibilizada ou reduzida a papéis secundários. Nos autódromos, era comum ouvir que mulheres estavam ali apenas como acompanhantes de pais, irmãos, namorados ou maridos. Nas transmissões televisivas, raramente apareciam como protagonistas de torcidas apaixonadas. Essa visão limitada, no entanto, já não reflete a realidade atual. Dados recentes comprovam que as mulheres não apenas acompanham as corridas, mas são responsáveis por uma parcela significativa do crescimento da Fórmula 1 em todo o mundo.​

PÚBLICO FEMININO EM ASCENSÃO

Um estudo recente da Nielsen Sports aponta que a categoria de Fórmula 1 é hoje a série esportiva anual mais popular no mundo, alcançando uma audiência global de 750 milhões de pessoas. Apenas nos últimos três anos, o interesse pelo campeonato aumentou 5,7%, o que representa aproximadamente 50 milhões de novos fãs desde 2021. Grande parte desse crescimento vem da presença feminina. Atualmente, as mulheres representam 41% da base de fãs da categoria automobilística, com destaque para a faixa etária entre 16 e 24 anos, segmento de público que mais cresce de acordo com uma matéria da revista Forbes publicada no fim de 2024.

 

Esse último dado revela duas forças complementares: de um lado, a presença cada vez mais marcante das jovens da Geração Z; de outro, a mudança cultural que transforma a imagem do automobilismo, antes associado a uma elite masculina, em um espaço de pertencimento mais plural.

 

Esse crescimento não aconteceu por acaso. A série documental Drive to Survive, produzida pela Netflix, foi um divisor de águas para o esporte. Ao apresentar os bastidores das equipes de Fórmula 1 com narrativa dramatizada, linguagem acessível e personalidades às vezes meio deturpadas, a produção conquistou um público que, até então, não se sentia atraído apenas pela parte técnica das corridas. De repente, pilotos e dirigentes se transformaram em personagens de um enredo global, despertando a curiosidade de milhões de jovens que encontraram ali uma forma de se conectar com o automobilismo.

 

Para muitas mulheres, a série foi a porta de entrada definitiva. Ao humanizar os bastidores, ela ofereceu algo além da velocidade e da técnica: histórias pessoais, rivalidades, emoções e contextos culturais. Não se tratava apenas de quem cruzava a linha de chegada em primeiro lugar, mas de entender os conflitos internos das equipes, as estratégias de carreira e até os dilemas pessoais dos pilotos. Esse olhar mais humano aproximou o esporte de quem, por muito tempo, foi excluído do discurso oficial.

 

O impacto foi tão significativo que, em pouco tempo, redes sociais como TikTok, Instagram e X se encheram de criadoras de conteúdo comentando corridas, analisando desempenhos e, principalmente, trazendo perspectivas que fugiam do padrão estabelecido pela mídia tradicional. Essa explosão de vozes femininas fortaleceu uma rede que, além de consumir, também produz informação, transformando a relação entre fãs e esporte.

DAS PISTAS VIRTUAIS ÀS TIMELINES: A FORÇA DAS INFLUENCIADORAS

O automobilismo de hoje vai muito além das pistas. Se antes a principal forma de acompanhar corridas era a televisão aberta, com transmissões formais e pouco espaço para vozes diferentes, agora as redes sociais e os podcasts abriram um leque de possibilidades que mudou a forma de torcer, comentar e até aprender sobre o esporte. No centro desse movimento estão as mulheres, que vêm assumindo o protagonismo na criação de conteúdo. De forma sutil, mas consistente, elas conquistaram espaço e criaram comunidades que atraem cada vez mais torcedoras, um contraste significativo com o passado recente, quando suas opiniões eram frequentemente descredibilizadas.

Um levantamento realizado com participantes da comunidade F1 Girly no WhastApp, mostra como esse cenário vem se transformando. Entre as entrevistadas, a maioria declarou que consome informações sobre automobilismo majoritariamente pelas redes sociais, seguidas por plataformas de vídeo e blogs especializados. Isso revela que a mediação não se dá mais apenas pela grande imprensa: criadoras de conteúdo como o BeFast Podcast, perfis como @formulalau, criadora da comunidade anteriormente mencionada, além de jornalistas como Carol Politta e Amanda Oestreich, aparecem de forma recorrente como referências para essas torcedoras. Muitas citam também nomes já consagrados no jornalismo esportivo, como Mariana Becker e Julianne Cerasoli, que há anos ocupam espaço nas transmissões de Fórmula 1, mas agora convivem em um ecossistema mais plural e interativo.

A criadora de conteúdo para as redes sociais, Laís Souza, 35, conta que durante a pandemia, em meio a rotina corrida como advogada, começou a fazer postagens em plataformas como TikTok e Instagram, como uma forma de passa-tempo durante um período tão caótico. O tema das suas postagens foi uma escolha simples; o automobilismo, que já fazia parte de sua vida desde a infância, a tornou uma das influenciadoras pioneiras a falar sobre o esporte.

Laís conta que, no início da sua carreira como influenciadora, muitas marcas não acreditavam na relevância que uma mulher falando sobre o automobilismo podia trazer para elas. Citando inclusive algumas das falas que escutou durante sua trajetória:

"Sofri com muito preconceito no começo. Tive que lidar com comentários sexistas, pessoas falando que eu só estava ali para tentar arrumar um piloto, porque queria chamar atenção de homem."

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FOTO - Acervo pessoal @Verdadesdalay

Com o tempo, a influenciadora provou seu valor e conquistou um público fiel, que se identificaram com a forma leve e humorada com o qual ela aborda o tema, sua autenticidade e conhecimento fizeram dela uma referência no mundo de criação de conteúdo automobilístico, consolidando sua posição como uma voz influente e relevante em um nicho antes considerado exclusivamente masculino. Em meio a olhares tortos de membros de equipes, esposas de pilotos, e até mesmo da própria família, Laís conseguiu ultrapassar o preconceito e criou uma carreira sólida dentro da criação de conteúdo automobilístico, ganhando respeito dentro dos autódromos.

“Hoje estou em uma posição que até os próprios pilotos me olham de baixo para cima, e não mais de cima para baixo.”

FOTO - Acervo pessoal @Verdadesdalay

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FOTO - Acervo pessoal @Verdadesdalay

Atualmente, em meio aos bastidores, estúdios e reuniões de briefing, Laís, que começou como influenciadora, se estabilizou como apresentadora do programa Cola no Grid, que entra ao vivo logo após as corridas, exigindo dela uma nova postura, mais polida e profissional. A transição do universo mais informal das redes sociais para o profissionalismo da televisão ao vivo trouxe novos desafios, como a necessidade de se policiar e tomar um cuidado redobrado na forma de se comunicar.​

Laís citou um pouco de como foi esse processo de transição:

“Foi um processo natural. Em um estúdio são 30 pessoas por trás, enquanto no meu Instagram sou só eu e o meu público. A linguagem é muito mais informal, agora quando você está na plataforma da Band, tem que se ter muito mais cuidado.”

VÍDEO - Acervo pessoal @verdadesdalay

Apesar de não ser um programa jornalístico em si, a preparação para entrar ao vivo é como se fosse, com reuniões de pauta, anotações da corrida, e muitas reuniões com diretores e todos apresentadores. Essa rotina de rigor e organização contrasta com a informalidade do seu início, mostrando a evolução de sua carreira e a seriedade com que ela e a equipe encaram o trabalho.

“É um programa como se você tivesse com a gente em uma mesa de bar, falando sobre os assuntos da semana da F1, F2, levando tudo de uma forma bem humorada.”

Quando perguntada sobre qual dica daria a meninas que querem começar a criar conteúdo automobilistico, Laís foi bem direta:

“Estude. [...] Não deixem de estudar. [...] Interpretação de texto é importantíssimo, para você passar uma informação e criar uma comunicação. [...] Vai ler, vai se informar. Você precisa ter uma base para passar informação pro seu público. [...] Até pra você passar fofoca, precisa ter uma base, ter fundamento, se não, você vai estar espalhando fake news. É muito sobre paciência.”

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FOTO - Acervo pessoal @Verdadesdalay

UNIVERSIDADES NA POLE POSITION: ONDE NASCEM OS NOVOS TALENTOS

A estudante do sexto período de Jornalismo da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus Bauru, Gabrielle Rocha Moreira, 21, ao ingressar na universidade, procurava um espaço que atenderia as duas áreas, juntando profissão e paixão: comunicação e o ronco dos motores. Encontrou isso na FEB Racing, a equipe de Fórmula SAE de Bauru.

Mesmo em um ambiente com uma discrepância alta, das engenharias a comunicação, a jovem não deixa de impor sua voz em meio a tantos homens na equipe.

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FOTO - Acervo pessoal Gabrielle Moreira

Se o streaming e as redes sociais ajudaram a despertar a paixão, é dentro das universidades que muitas jovens encontram o espaço para transformar curiosidade em carreira. No Brasil, a Fórmula SAE é um exemplo claro de como a academia pode funcionar como ponte entre o sonho e a prática. Trata-se de uma competição internacional em que estudantes projetam, constroem e testam protótipos de carros, simulando todas as etapas de uma escuderia profissional, desde a concepção técnica até a apresentação para investidores e jurados.

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FOTO - Acervo pessoal Gabrielle Moreira

“Ainda estou me acostumando, mas estar na equipe me mostrou como posso impor limites. Em um ambiente tão masculino e competitivo, [estar em um espaço historicamente dominado por homens] mostra que não é porque sou “doce e feminina” e de um curso de humanas que não posso levantar minha voz tanto quanto eles.”

Em meio às muitas dúvidas que surgem das pessoas, o que mais se escuta é  “O que uma mulher da área de comunicação tem a ver com um projeto de extensão da mecânica?” A dúvida e o preconceito se prendem à ignorância. Todo trabalho coletivo parte da comunicação, a dinâmica de trabalhar lado a lado com áreas técnicas das engenharias e comunicação, ainda sim, fora e dentro das mídias, tem um papel fundamental para manter a engrenagem da equipe funcionando. Gabrielle enfatiza como trabalha a comunicação em sua equipe:

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“É complicado mas ao mesmo tempo divertido, sinto que eles [membros da equipe da área de projetos] são bem mais diretos e mais objetivos, mas ao mesmo tempo possuem dificuldades de dizer o que querem e até mesmo em comunicação. Por isso sinto que é tão importante ter cursos como relações públicas e jornalismo dentro desses projetos.” - Gabrielle

FOTO - Acervo pessoal Gabrielle Moreira

Em nuances, queijo com goiabada, preto no branco. A experiência de mulheres da área de comunicação em uma equipe de competição de fórmula SAE, atribui e contribui para o coletivo da equipe e formação profissional em ambas as áreas, que se dizem tão distintas. Trabalhar com áreas diferentes abre conhecimentos, vivências e aprendizados diversos.

“Sem dúvidas saber lidar com o diferente. Em comunicação, você já sabe o que esperar, sabe como lidar, mas agora com pessoas diferentes da sua bolha você tem que saber lidar com o que quer, com o que precisa e com o que os demais querem e precisam.”

Apesar das dificuldades enfrentadas por ela e por tantas outras mulheres no meio, o incentivo e a crença em um futuro com mais representatividade feminina são fortes. Gabrielle acredita que sua presença e a de suas colegas inspiram outras jovens a ocuparem esse espaço.“O fato de elas verem que mulheres de todos os tipos participam disso mostra como tem espaço para cada vez mais meninas. Muitas vezes, esses projetos colocam apenas faces masculinas, sendo que no basckstage tem muitas mulheres fazendo o trabalho bruto.”

“Apenas vão, com medo mesmo. Entrar na FEB Racing foi a melhor coisa que fiz no meu ano de 2025 até agora, eu expandi meus conhecimentos e melhorei, não apenas como profissional mas como pessoa. Conheci novos amigos e novos lugares, pude perceber que sou boa em coisas que nem mesmo imaginava e sou muito grata por esse projeto.”

Na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), por exemplo, a UFU Racing tem visto um crescimento expressivo da participação feminina, especialmente em áreas de gestão de equipe, aerodinâmica e comunicação. Já a Equipe Bufallo da Universidade Federal Fluminense (UFF), conta com 20 mulheres de um time de 40 estudantes. Muitas alunas relatam que entrar no projeto foi o momento em que conseguiram enxergar na prática que o automobilismo não é exclusivo de um gênero, mas um campo aberto a quem tem talento e disposição.

PRIMEIRAS VOLTAS: QUANDO O KART SE TORNA RESISTÊNCIA

Por décadas, a presença feminina foi associada mais à figura de “musa do paddock” ou de esposa de piloto do que à pilotagem em si. Hoje, no entanto, essa lógica se quebra pouco a pouco. Meninas que antes só acompanhavam corridas da arquibancada ou da sala de casa agora vestem macacões, alinham nos grids e aceleram em busca de reconhecimento.

Um exemplo marcante é a kartista Analu Ramos, 16. Natural de Niterói, no Rio de Janeiro, ela descobriu a paixão pelo esporte em 2023, ao assistir ao Campeonato Brasileiro de Kart. No ano seguinte, já estava dentro das pistas pela categoria Rental, porta de entrada para iniciantes. Desde então, vem acumulando experiências e, junto delas, enfrentando as barreiras de ser uma das poucas meninas em um ambiente ainda marcado pela predominância masculina.

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FOTO - Acervo pessoal Analu Ramos

Os obstáculos se revelaram logo nas primeiras sessões de treino. “As pessoas olhavam para mim e não queriam estar na pista ao mesmo tempo. Eu percebia que muitas vezes adiantavam ou atrasavam a bateria por minha causa”, conta. 

O relato sintetiza um problema estrutural: a resistência ao protagonismo feminino no automobilismo começa cedo, quando meninas ainda estão em formação. Para Analu, a postura de alguns pais é parte desse problema, já que reproduzem preconceitos e limitam o espaço das filhas em comparação aos meninos. “Os pais dos meninos perpetuam preconceitos desde cedo, criando um ambiente em que nós não somos vistas como iguais, mesmo quando temos desempenho superior”, diz.

No cenário brasileiro, outras jovens começam a chamar atenção nas categorias de base. Julia Ayoub, que passou pela Ferrari Driver Academy e levou a bandeira brasileira para competições internacionais, reforça que o país pode voltar a sonhar com uma mulher em categorias principais. Rafaela Ferreira também fez história ao se tornar a primeira vencedora da F4 Brasil em 2024, garantindo uma vaga na temporada de 2025 da F1 Academy.

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FOTO - Acervo pessoal Analu Ramos

Essas trajetórias, ainda que isoladas, reforçam a importância de iniciativas de apoio. Sem patrocínio e sem visibilidade, muitas dessas jovens poderiam desistir antes de mostrar seu talento. Mas a resistência tem sido o combustível para manter o sonho vivo. Se no passado era difícil até imaginar uma menina disputando lado a lado com meninos no kart, hoje elas não apenas disputam, mas também vencem corridas e inspiram outras a acreditarem no próprio potencial.

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CRUZANDO A LINHA DE CHEGADA: ACELERANDO PELA IGUALDADE

Nos últimos anos, algumas iniciativas começaram a mostrar que é possível desenhar caminhos de transformação real. No Brasil, a Comissão Feminina de Automobilismo (CFA), criada em 2023 no âmbito da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), tem sido um dos pilares mais importantes nesse processo. A partir dela surgiram ações como a Imersão para Mulheres no Motorsport, lançada em 2023 e ampliada em 2025, que oferece módulos gratuitos e online ministrados por profissionais da área, com foco em inspirar e capacitar mulheres não apenas na pilotagem, mas também em funções técnicas como engenharia de pista, dinâmica veicular, aquisição de dados, comunicação e gestão de eventos. Esse tipo de programa mostra que inclusão não pode se restringir às pistas: é necessário criar uma cadeia de oportunidades que contemple todas as áreas que compõem o ecossistema do automobilismo.

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Outro passo fundamental dado pela comissão é o programa de estágios FIA Girls on Track Brasil. Em 2024, foram abertas 30 vagas, permitindo que estudantes de todo o país, dos 15 aos 22 anos, vivenciassem na prática o funcionamento de competições como a etapa brasuca da Fórmula 1. Ao oferecer experiência real de bastidores, o estágio cumpre dois papéis: fortalece currículos de futuras profissionais e cria redes de contatos que serão fundamentais para que elas avancem em suas carreiras.

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A aposta em competições específicas também vem se mostrando eficiente para aumentar a visibilidade de mulheres em categorias de base. Em 2025, a Seletiva de Kart FIA Girls on Track Brasil abriu 32 vagas para meninas nas categorias Kids e Júnior, oferecendo como premiação R\$ 30 mil para cada vencedora investir em sua carreira. Diferentemente de outras competições que exigem altos custos de inscrição, essa seletiva é gratuita, o que reduz uma das principais barreiras enfrentadas pelas meninas e suas famílias. A lógica é simples: quanto mais portas de entrada forem criadas sem depender exclusivamente de recursos financeiros, maior a chance de surgirem talentos que de outra forma permaneceriam invisíveis.

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Além do kart, o universo dos simuladores também se tornou uma frente de inclusão. Em 2025, o Campeonato de E-Sports FIA Girls on Track estreou como competição gratuita para mulheres em simuladores de corrida. O impacto vai além do virtual: ao permitir que garotas desenvolvam habilidades estratégicas, raciocínio competitivo e familiaridade com dinâmicas de pista em ambientes digitais, o projeto cria uma ponte entre o automobilismo real e o simulado, dois campos cada vez mais integrados no cenário esportivo mundial. A importância desse tipo de iniciativa está em oferecer alternativas acessíveis para jovens que, muitas vezes, não têm condições financeiras de começar diretamente no kart ou em outras modalidades presenciais.

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Se as seletivas ajudam a revelar novos talentos, a formação de equipes femininas completas em grandes eventos reforça o simbolismo da igualdade. Em 2025, o maior rally das Américas, o Sertões, contou com uma equipe 100% feminina organizada pelo FIA Girls on Track Brasil. Sob comando de Camila Mattheis, a escuderia teve Raquel Stein como piloto, Christina Xavier como navegadora, Ana Cristina da Silva na mecânica e Bárbara Sanglard na engenharia. Ver mulheres ocupando todos os cargos de uma equipe em uma competição desse porte não é apenas inspirador: é um recado claro de que o espaço não precisa ser conquistado pela exceção, mas pode e deve ser ocupado de maneira integral.

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Esse movimento se conecta a iniciativas internacionais. Em 2025, a FIA lançou uma versão expandida do Women in Motorsport Mentoring Programme, programa global de mentoria que conecta mulheres iniciantes com mentoras experientes para orientação de carreira e suporte prático. A ideia é que a troca de vivências acelere a entrada e a permanência de mulheres em um setor historicamente hostil, oferecendo não apenas conhecimento técnico, mas também acolhimento e referências de trajetória. Esse tipo de suporte emocional e profissional pode ser o diferencial para que jovens promessas não desistam diante das primeiras barreiras.

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Há também ações com impacto social direto, como o projeto realizado em São Paulo em parceria com a Escola do Mecânico e os organizadores do GP de Fórmula 1. Em 2023, mais de cem mulheres de origens vulneráveis se formaram como mecânicas qualificadas, criando oportunidades reais de empregabilidade em oficinas, equipes e empresas do setor. Esse é um exemplo de como a inclusão pode se articular com políticas sociais, garantindo que o automobilismo não seja visto apenas como um ambiente de elite, mas como um setor com potencial de mobilidade econômica para populações diversas.​​

FOTO - Mar Sabrina @marsabrinaart

Ao lado dessas conquistas, é fundamental reconhecer que ainda existem barreiras que precisam ser enfrentadas. O custo elevado do automobilismo continua sendo um filtro seletivo, a falta de patrocínio específico limita o avanço de muitas carreiras, e a resistência cultural persiste em torcedores, dirigentes e até mesmo em famílias. Para superar esses entraves, especialistas apontam algumas soluções: criação de bolsas e subsídios para despesas básicas, exigência de contrapartidas de diversidade em contratos de patrocínio, regulamentações que incentivem a participação de mulheres em grids e funções técnicas e treinamentos obrigatórios contra discriminação dentro das equipes. Além disso, é necessário fortalecer a visibilidade. Não basta incluir mulheres: é preciso mostrar suas histórias, celebrar suas conquistas e dar espaço em narrativas oficiais. Isso envolve desde transmissões televisivas até o trabalho de criadoras de conteúdo independentes, que já vêm desempenhando papel decisivo ao humanizar o esporte e criar comunidades digitais de apoio. A comunicação consciente, que valoriza o talento em vez de reforçar estereótipos, é parte essencial do processo.

O desafio agora é duplo. Por um lado, há a necessidade urgente de desconstruir os estereótipos que limitam a presença feminina no  automobilismo. Isso passa pela educação de famílias, equipes e torcedores, reconhecendo que o esporte é, de fato, misto e deve ser igualitário em todas as suas dimensões. Por outro, é preciso ampliar os canais de apoio e patrocínio, garantindo que meninas talentosas não abandonem suas carreiras por falta de condições materiais. Enquanto isso não acontece, o consumo engajado e a produção de conteúdo pelas mulheres seguem como trincheiras fundamentais de resistência.​

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Em última instância, o que se percebe é que o automobilismo não pode mais se dar ao luxo de ignorar metade de sua base. Seja na pista de kart em Niterói, nos stories do Instagram, nos inúmeras qg’s construídos em pequenas salinhas de campos universitários, ou nas transmissões da Fórmula 1 via canal Band, as mulheres estão presentes, opinando, disputando, narrando e construindo história. E cada vez que uma Analu enfrenta o olhar enviesado de adversários, cada vez que uma torcedora realiza seu sonho de estar presente em um GP, que uma menina sente o ronco do motor que ela mesma construiu, ou que uma criadora de conteúdo mobiliza milhares de seguidores, o esporte acelera rumo a um futuro mais justo. A bandeira quadriculada da igualdade ainda não foi agitada, mas a corrida já começou, e as mulheres estão, sem dúvida, na linha de frente.

MÍDIA

Trabalho realizado por estudantes de Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia: Aiko Fukushima, Ana Luísa & Letícia de Paula

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Carrossel de inspirações: na primeira imagem temos Lay, influencer e amante do automobilismo, na segunda imagem temos Ana Lu, kartista mirim que luta todos os dias pelos seus direitos de pertencimento nas pistas e por fim, temos as garotas da UFU Racing que participaram e competiram na Formula SAE Brasil 2025.

QUEM SOMOS

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Estudante de Jornalismo

Aiko Fukushima

Olá! Meu nome é Aiko, sou estudante do 3º período de Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e apaixonada por automobilismo. Faço parte da equipe de Fórmula  SAE da Universidade Federal de Uberlândia, a UFU Racing. Acredito que dar visibilidade e voz às mulheres no automobilismo é fundamental para transformar esse espaço e inspirar novas gerações. 

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Estudante de Jornalismo

Ana Luisa Rodrigues

Olá! Meu nome é Ana Luisa, mas pode me chamar de Analu, sou estudante do 3º período de Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Ainda estou descobrindo o mundo do automobilismo, mas enxergo nele um futuro promissor, principalmente com a crescente presença das mulheres, que desde sempre lutam e conquistam seu espaço nessa área.

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Estudante de Jornalismo

Letícia de Paula

Olá! Meu nome é Letícia, mas pode me chamar de Leah, sou estudante do 7º período de Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e para mim só existem dois esportes no mundo: cheerleading e automobilismo. Mercedista roxa, espero nos próximos anos poder ver uma mulher pilotando um flecha de prata na Formula 1.

Este site está vinculado às disciplinas de PIC III e Jornalismo Digital do curso de Jornalismo da Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) © 2025

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